02/12/2019 / Ramon Cardoso

Esporte

Taça no armário e vaga no Brasileirão: gigantes gurias rubro-verdes

Este domingo, dia 1º de dezembro de 2019, já entrou para a história da Sociedade Esportiva, Recreativa e Cultural (SERC) Brasil. Em uma projeção meteórica, o projeto de futebol feminino do clube, que iniciou nem há três anos, alçou seu voo mais alto, chegando à habilitação para a disputa do Brasileirão Série A2 em 2020, apenas no seu segundo ano participando de competições oficiais. Mas isso fica mais para a frente, porque o dia começou cedo.
Nas Castanheiras, às 6h, as meninas começaram a chegar para o café e a apresentação para a viagem rumo a São Leopoldo, para o duelo contra o Oriente, no Estádio João Corrêa da Silveira, o Cristo Rei. Muitas caras de sono, tensão que é natural neste tipo de ambiente de decisão mas, sobretudo, confiança e segurança de que tudo que devia ter sido feito, foi feito. As gurias rubro-verdes chegaram ao palco da final focadas e, após o reconhecimento do gramado, palestra com o técnico Guilherme Henrique Lange, repassando as informações finais para o confronto.
Enquanto o aquecimento ocorria no gramado, a assessora Lis Neis e a massagista Silvia Colombo se encarregaram de preparar o material de jogo com um detalhe a mais: mensagens positivas de familiares que provocaram uma choradeira na volta do trabalho de aquecimento. Mas um choro que faz bem, o choro de quem sabe que tem um apoio incondicional por trás, um suporte vital para transformar um sonho distante em algo tangível, palpável e, o melhor, ao alcance das mãos. Era hora de fazer o sonho virar uma doce realidade.
A tensão, que já era enorme, ficou ainda maior porque a Federação Gaúcha de Futebol (FGF), sempre ela, não informou às autoridades competentes a realização do duelo. Resultado: cerca de 40 minutos de atraso à espera da ambulância e da Brigada Militar. Com uma temperatura na casa dos 30ºC e em confronto disputado às 11h, que iniciou às 11h40min, uma ansiedade absurda tomava conta de atletas, dirigentes, familiares e torcedores. Enfim, situação normalizada.  
Na saída de bola, Bianca lançou Tuca que entrou na área e foi derrubada pela goleira Bina. Pênalti ignorado pelo árbitro Humberto Haag e tampouco visto pela bandeirinha Ariela Duarte da Silveira. O comandante do apito demonstrava mais nervosismo que as atletas em campo, invertendo faltas e deixando outras passarem, o que tornava o ambiente ainda mais tenso. Qualquer dividida das gurias rubro-verdes era apontada falta e foi assim que o Oriente começou melhor, ameaçando de bola parada.
A ponteira Nick, a atleta mais talentosa do time de Canoas. Cobrou falta que passou próxima ao gol de Gil, caindo na rede pelo lado de fora, aos 10 minutos. Aos 14, ela de novo cruzou e a ponteira Dini finalizou livre, no segundo poste, para fora. O Brasil estava nervoso em campo, mas aos poucos se reposicionou. Aos 20 minutos, a melhor chance. A volante Bianca cruzou na área, a meia Luana se jogou na bola e ela passou raspando a trave. A atacante Tuca se esticou toda, mas não alcançou.
Foi o último lance da meia rubro-verde. Luana se estranhou com a lateral Indi e o árbitro mandou as duas para o chuveiro. Vermelho direto. O lance poderia ser contornado com dois amarelos, mas como a lateral do Oriente já tinha, Humberto adotou a medida extrema. Na parada para hidratação, Guilherme reposicionou o time, mas o Brasil foi muito mais prejudicado que o rival de Canoas na expulsão. Luana centralizava as ações no meio campo e, sem ela, a equipe passou a apostar muito em ligações diretas, ao passo que o Oriente trabalhava melhor a bola. A lateral direita Tai sentiu lesão no joelho e Vick entrou no seu lugar, aos 25 minutos.
Aos 30 minutos, Tuca avançou e cruzou para a área, a bola pegou na mão da zagueira Elna, mas o novo pênalti foi ignorado. Nos minutos finais, o time farroupilhense passou a controlar mais as ações, se acalmou e foi para o intervalo com o 0 a 0. Guilherme fez uma troca de volantes para ganhar poder de marcação no meio, tirando Bianca e colocando na equipe Bruna Fachini. Com isso, Bruninha passou a atuar mais como meia, Fachini saia à caça das rivais e Djuli ficava mais na sobra. A estratégia deu certo, mas não por ela que o placar foi inaugurado.
Logo a 1 minuto, Pati cobrou escanteio com uma precisão incrível e fez um golaço olímpico. Brasil 1 a 0. O Oriente sentiu o gol e acusou o golpe. O rubro-verde ficou mais na espera e apostava nos contra-ataques. Aos 11 minutos, a proposta do intervalo surtiu o efeito esperado. Bruninha fez ótimo lançamento, Pati confundiu a marcação e Tuca, numa arrancada incrível, carregou a bola, driblou a goleira Bina e empurrou para as redes. Foi o quarto gol da artilheira rubro-verde no Gauchão. Brasil 2 a 0.
O técnico Marco Aurélio Maia promoveu duas trocas no time de Canoas. Entraram a lateral Thaisinha, para recompor o lado esquerdo, no lugar de Angélica, e a atacante Deise no lugar da centroavante Bragança, de atuação apagada, muito por conta da solidez defensiva da dupla de zaga Ifi e Luane. Vick e Adri, na lateral esquerda, também foram incansáveis na marcação, ainda com Djuli e Fachini limpando o trilho à frente da zaga, e Bruninha correndo por todo o campo auxiliando na marcação, estava criado um ferrolho defensivo praticamente intransponível.
A tarefa ficou facilitada aos 16 minutos. A zagueira Elna deu uma entrada violenta quando Pati puxava um contra-ataque e levou o vermelho direto. As travas na chuteira da defensora são a mais nova tatuagem da centroavante do Brasil, que teve de sair do jogo por conta da pancada. A meia Bruna Galiotto entrou em seu lugar. Com 10 contra 9, as gurias rubro-verdes viam o sonho mais próximo. Depois da parada técnica para hidratação, Maia colocou a meia Mitssa no lugar de Greyce, aos 30 minutos, mas a alteração não surtiu o efeito esperado. Aos 32, Guilherme promoveu as três trocas finais. A lateral esquerda Fran no lugar de Bruninha, a atacante Pâmela no lugar de Tuca e a lateral direita Ana no posto de Vick.
O Oriente somente ameaçava em faltas no lado da área e foi numa delas que chegou ao gol de desconto, com a atacante Mitssa, aos 43 do 2º tempo. Os seis minutos de acréscimo foram um tormento para o Brasil. Qualquer dividida das gurias rubro-verdes era marcada falta. E como sempre, bola alçada para a área. Mas a defesa rebateu todas. Por cima e por baixo. Até que chegou o tão esperado apito final e teve início a merecida festa das atletas farroupilhenses, claro, com direito a muito choro e aquele agradável sentimento de que tudo valeu a pena na inesquecível temporada rubro-verde, que teve também o acesso no profissional à Segundona Gaúcha.
Logo de depois de Gil erguer a taça de Campeã do Interior e, por tabela, assegurar a vaga gaúcha no Brasileirão Série A2 em 2020, foram muitos os sorrisos e as lágrimas na comemoração no gramado. Com a taça ao centro, em uma roda de agradecimento, as gurias, dirigentes e torcedores relembraram um 2019 intenso, nas palavras da capitã, do diretor Gabriel Marchet e do presidente Elenir Luiz Bonetto. A festa saiu do gramado (foto acima, de Ramon Cardoso/Jornal Informante) para o ônibus e seguiu por todo o caminho até Farroupilha, onde ocorreu um desfile pelas ruas da cidade e que encerrou em casa, no Estádio das Castanheiras, para festa até altas horas da noite.
Uma conquista histórica, homérica, épica, gigante e, como tal, celebrada com muita justiça. As gurias rubro-verdes extrapolam as fronteiras do Rio Grande do Sul e colocam o Brasil Feminino no cenário nacional em 2020. A meta, que foi traçada desde o início do Gauchão e viabilizada por conta do acesso do Grêmio à Série A1 para o próximo ano, deixando uma vaga aberta na A2 para a melhor do interior, foi concretizada à base de muita luta, sangue, suor e lágrimas.
Para resumir a situação: tirando a Dupla Gre-Nal, únicas duas equipes profissionais do Estado, o melhor time feminino do futebol gaúcho é o Brasil. Um triunfo grandioso, que ainda sequer pode ser dimensionado, mas que encheu Farroupilha de orgulho. Valeu demais, gigantes gurias rubro-verdes. Ao longo da semana, mais sobre o Brasil Feminino no Site e Facebook do Informante e a cobertura especial na Edição 617, que circula na próxima sexta. Não deixem de conferir.     

Gauchão Feminino 2019
Decisão do Título do Interior
Brasil   2

Gil; Tai (Vick, aos 25 do 1º, e Ana, aos 32 do 2º), Ifi, Luane e Adri; Djuli, Bianca (Bruna Fachini, intervalo), Bruninha (Fran, aos 32 do 2º) e Luana; Tuca (Pâmela, aos 32 do 2º) e Pati (Bruna Galiotto, aos 18 do 2º). Técnico: Guilherme Henrique Lange
Oriente   1
Bina; Tchu, Elna, Shirley e Indi; Vick, Greyce (Mitssa, aos 30 do 2º), Angel (Thaisinha, aos 15 do 2º) e Dini, Nick e Bragança (Deisi, aos 15 do 2º). Técnico: Marco Aurélio Maia
Gols: Pati, a 1 minuto do 2º tempo, e Tuca, aos 11 do 2º, para o Brasil; Mitssa, aos 43 do 2º tempo, para o Oriente
Cartões amarelos: Adri, Djuli, Bruna Fachini, Bruninha e Tuca (Brasil); Dini e Indi (Oriente)
Cartões vermelhos: Luana (Brasil), Indi e Elna (Oriente)
Arbitragem: Humberto Haag, auxiliado por Ariela Duarte da Silveira e Lucas Steil
Local: Estádio João Corrêa da Silveira, o Cristo Rei, em São Leopoldo
Data: 1º de dezembro de 2019

 

 

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